Sintonia

Elarge (1)u e a primavera estávamos em Paris. Era começo de noite e do restaurante eu via a torre Eiffel. Minhas tentativas de pedir um prato em francês estavam fracassando quando uma outra voz que não era minha, ou da atendente – e, provavelmente, não era da primavera – ecoou enquanto o dono dela puxava a cadeira ao meu lado e se juntava a mim à mesa.
Talvez eu deveria ter reagido, mas sofro de impossibilidade-de-reação-ao-ouvir-homem-sexy-falar-francês. Nos olhamos por longos deliciosos segundos. Ele falou algo, soava bonito e ritmado, mas tudo que consegui entender foi que era uma pergunta por causa da entonação. Pedi pra ele repetir, mas ele não podia me entender. Continuamos nessas tentativas frustradas que se transformaram em sorrisos e gargalhadas. Até sua gargalhada tinha um sotaque francês…
Conseguimos nos apresentar e começar uma conversa com um pouco de nexo. Ele me ensinou um pouco de francês e jantamos e rimos e nos divertimos.
E no fim da noite a primavera e Paris assistiram nosso beijo: O momento em que finalmente parecíamos estar falando a mesma língua.

Gente que escreve

largeTem gente que escreve para si e gente que escreve para o mundo. Tem gente que adora o chiado do lápis no papel – e a dorzinha na mão ao final do texto – e gente que ama o som das teclas do computador ritmando a obra escrita.
Tem gente que se inspira nas lágrimas, gente que se inspira em sorrisos e gente que se inspira do nada (quem não é gente da gente nunca entenderá como isso acontece, talvez nem a gente entenda).
Tem gente que quando lê o que escreveu há dois anos, se envergonha, e gente que quando lê o que escreveu há dez se surpreende e se orgulha.
E tem gente que é um pouco de cada gente descrita. Dependendo do momento ou do gênero que está a escrever. Gente que os seus textos resumem, mas não limitam. Gente que muda em e por cada página que redige, mas que tem essência e a deixa transparecer em toda frase que compõe. Gente escritor: Seres comuns que se fazem únicos naquilo que escrevem.

Um viva à poesia viva

tumblr_mkj7l2uyfu1rbub5do1_500_largeUm dia já cantei “A poesia está morta, mas juro que não fui eu” com convicção de uma sofrida em ter que aceitar aquilo, que a poesia tinha morrido com Drummond e Cazuza.
Mas olhando ao redor percebo que ela não morreu, pelo menos não para todo mundo, não em todo lugar.
Vejo poesia nos pássaros, no brilho da lua quando, no ápice de sua beleza, está cheia.
Vejo poesia no meu travesseiro, talvez poetizados pelos meus sonhos..
E quando eu escuto Chico Buarque.. Ah, aí eu sinto a poesia, poesia viva!
A poluição tira a poesia do mundo, aquela do ar, da água, do som, mas poesia que é poesia, resiste. Vira a página. Revira a página. Revira a vida.
Vejo poesia no Anitelli quando ele faz trocadilhos que me surpreendem como em Zaluzejo quando ele diz “Que não vai S na cebola, que não vai S em feliz” (que não vai é ser infeliz). Quanta inteligência e sagacidade, Fernando, ou melhor, quanta poesia!
Não há nada mais poético que meus pais se tratando como namorados enquanto comemoram suas bodas.
E quando meus amigos se juntam para tocar violão e um deles começa os acordes de Vinícius ou Leoni, aí eu vejo que ainda há esperanças, a poesia ainda vive.
Então, Caetano, seu lindo verso não pode estar tão certo, até porque ele mesmo me fornece poesia suficiente para me abalar. E poesia que se prese, abala quem a conhece.

O cesto frio

1aa9dfc4f5b647b306532549202f862d_largeEra uma criança que tinha sido deixado pela mãe na rua Marilino de Albuquerque, 214, dia 16 de Abril de um ano que não importa por um alguém que se importava e por isso mesmo preferiu deixar seu pequenino para outro alguém que pudesse lhe oferecer um futuro melhor. Antes de apertar a campainha ela o abraçou forte e balbuciou as palavras nas quais ela mesma estava se forçando a acreditar por achar ser a única opção: “Vai ser melhor pra você”. E nos braços dela ele se sentia amado, se sentia bem, mesmo com fome.. Mas ela o colocou na cesta. E na cesta ele sentia frio e medo, sentia vontade de sair dali e correr, mas nem andar sabia ainda. Até que fora resgatado por uma governanta de roupa engomada e mente ocupada que o levou para dentro.
Ele cresceu dentro da casa enorme da rua Marilino de Albuquerque, 214, e tinha comida e tinha brinquedos e tinha mesada.E gastava a mesada e fazia viagens e até tinha amigos. Seus pais, ou aquelas pessoas de olhar pragmático e vazio que habitavam a casa, trabalhavam dia e noite para lhe dar comida, brinquedos, mesada, viagens e talvez, amigos. Perguntavam se ele precisava de algo e ele sempre dizia que não, mas toda noite antes de dormir se sentia na cesta e continuava querendo sair, correr, mas agora o que lhe impedia não era não saber andar, mas não saber para onde ir, não saber onde encontrar a mulher do bom abraço.
A casa da rua Marilino tinha uma temperatura ajustada ao agradável, mas nunca conseguira o aquecer tão bem quanto aquele último abraço do dia 16 de Abril. E nenhum dos bens comprados pelos seus ‘pais’ o fazia tão bem quanto o que sentira nos braços de sua mãe. Braços preenchidos de amor. Braços que não iriam puder ser comprados em loja alguma.

Ele era bom. Cuidava de filhos e dividas que não tinha feito. A levava ao cinema e fazia questão de pagar entrada, além de assistir o filme que ela escolhesse, independente de qual fosse. Ela nunca havia o pego mentindo ou traindo. Ele era bom. Não bom de cama, mas bom de alma. Dava livros e viagens de presente. Mandava mensagens dizendo onde e com quem estava, mas era desnecessário, ele sempre estava fazendo as mesmas coisas com as mesmas pessoas. Ele sempre chegava em casa nos mesmos horários. Ele a fazia tranquila, despreocupada, algumas vezes até a fazia feliz, mas nunca a fez mulher. Ela queria mistério, magia e motel, ela queria ter medo da traição só para depois descobrir que fora um susto. Ela não queria cinema, queria programas diferentes, queria beijos na chuva. Queria sair e não ter hora pra voltar. Ela queria amor, claro, mas queria ousadia e uma porcentagem de loucura. Ele era bom, mas não pra ela. Ele era bom, talvez bom demais pra ela.

A menina do lenço

A menina não tem cabelos ao vento, em seu lugar, tem um lenço. Esse lenço é trocado todo dia, “de acordo com meu humor” diz ela. Engraçado, o lenço que usa é sempre um de cor bonita e alegre, a menina parece nunca estar triste. Ela adora se maquiar, sempre foi assim, desde que descobriu o estojo da mãe. Se pinta combinando com o lenço, uma graça.
A menina passa muito tempo no hospital, mas com sua simpatia já fez várias amigas dentre as enfermeiras e colegas de quarto, juntas elas brincam por horas, conversam sobre música, teatro, dança, por sinal, ela ama dançar, passaria horas bailando se pudesse. Recebe muitas visitas, quem a conhece sempre volta pra vê-la novamente.
No seu quarto, sua cama é logo identificada, lá está Maria, a boneca que ganhou de sua mãe pouco depois que descobriu a doença. Maria também usa um lenço, que também é trocado todo dia, ela não tinha muitas coisas, mas assim como a menina, Maria tem um belo sorriso no rosto.
Quando as enfermeiras estão ocupadas e não tem visitas, a menina adora olhar pela janela do hospital, de lá vê várias borboletas, ela acompanha o voo das borboletas e aquilo causa nela uma alegria imensa, a menina mostra a paisagem a Maria e juntas gastam horas e horas apenas observando a natureza, as cores, as formas e aquelas borboletas.
A menina é tão feliz, e não se sabe disso porque ela diz, a menina transmite alegria, sorri por pouca coisa, por poucas palavras. Ela chora, lógico, quem não chora? Mas ela sabe o valor do sorriso e não gosta de perder tempo com as lágrimas.
E eu imagino o quanto a gente tem a aprender com a menina e com a boneca, têm tão pouco e se agradam com o que tem, têm tantas dificuldades, mas não tiram o sorriso do rosto. Acho que às vezes temos que usar o lenço delas, perceber as coisas simples e ignorar as coisas pequenas, pois é, às vezes simples e pequeno são palavras antagônicas. A verdade é que o mundo deveria ter mais pessoas assim, com lenços, lenços ideológicos.

A humanidade continua desumana

Sinceramente, já não sei quantos textos contra preconceito já li, e com tanta repetição eu achava-os desnecessários, na minha cabeça não era possível que as pessoas ainda desrespeitassem gays, negros, pobres ou o que for. Na minha cabeça já não era necessário clichês como: “Somos todos iguais”, ingênua eu!
O fato é que ainda há pessoas que se importam com a cor da pele e fecham os olhos para a corrupção, há pessoas que sentem “nojo” dos homossexuais e não se importam com o que o ser humano está fazendo com o planeta. Resumindo, o mundo está repleto de idiotas.
Eu esperava mais da humanidade, mais racionalidade desses animais ditos racionais, e além de tudo eu esperava mais sensibilidade, mas a gente cresce e vai descobrindo que o mundo não é cor de rosa, ou azul, vermelho.. O mundo está tão preto e branco.
Se as pessoas ao menos guardassem seus preconceitos para si e tentassem resolvê-los sem demonstrar sua ignorância, mas não, fazem questão de maltratar, machucar, os “diferentes”. Apesar de tudo, apesar da repetição que já falei, fico feliz ao ler textos contra preconceito, gosto de ver que há pessoas conscientes, que lutam para abrir os olhos das pessoas, ou, mudando o clichê, que lutam para fechar os olhos das pessoas e fazê-las sentir o próximo não se importando com sua aparência.
Acredito que um dia todos terão as mesmas oportunidades, talvez seja um sonho distante, talvez alguns diam ser impossível, mas eu não me importo. Aprendi na minha vida, que temos que acreditar no que queremos, que temos que ser positivistas, porque aí sim as coisas podem acontecer. Quem sabe de texto em texto, debate em debate, clichês em clichês, nós não consigamos o tão sonhado “mundo melhor”.

Entradas Mais Antigas Anteriores