Um antes e depois grafado

Há 10 meses escrevi esse poema sobre meus pensamentos em relação ao intercâmbio. Hoje, lendo-o, me senti na obrigação de me comunicar de alguma forma com aquela menina tão temerosa, mas tão decidida. Fiz uma carta para àquela que um dia fui agradecendo-a por não ter desistido.

Eis o poema “Introspecção” datado de 24 de Agosto de 2013.

Hoje pensei em desistir.

Que ideia inconsequente deixar pai, mãe, cachorro, amigos, casa, colégio.
Que ideia inconsequente deixar forró, brigadeiro, frevo, maracatu, calor.

Hoje pensei em desistir.

Minha mente martelava:
Você não vai conseguir
não vai conseguir
não vai
não
não posso pensar assim

Meu intercâmbio vai ser um desafio
Meu maior desafio
Vai me fazer sofrer e quase desistir, mas vai me fazer aprender.
Vai me mostrar que eu posso ser mais forte que a saudade, porque na vida a gente tem que aprender a lidar com ela.
Vai me ensinar a conviver com os outros e comigo.
Vai deixar que eu descubra quem sou de verdade.
Vai me mostrar que a vida é mais que isso que eu vivo agora
é mais que se preocupar com o que não interessa
é mais que não aproveitar o que se tem
Vai me mostrar que a vida é mais

Então eu não vou desistir. Não vou desistir porque acredito em mim, porque acredito que posso finalizar um projeto, que posso fazer aquilo que é certo e não aquilo que é cômodo.
E que posso
Ultrapassar as dificuldades
E ser feliz

Eis a carta:
Olá,
Eu sou você. Estou vivendo o momento que você tanto pensou sobre, se indagou e até temeu. O momento que você não tinha ideia como seria. Estou no final do nosso intercâmbio.
Você sou eu pré-intercâmbio: Mais infantil, com menos certezas. Eu sou você oito quilos mais pesada e um bocado mais amadurecida.
Não se preocupe: Ainda temos muito em comum. Eu ainda sonho como você, escrevo como você. Eu amo diferente de você, mas tanto quanto você. Eu ainda sou você, mas nós crescemos.
E quero, por meio desta carta, te agradecer por ter nos permitido crescer. Eu lembro como estávamos receosas, mas quero te certificar que deu certo.
Conhecemos lugares lindos e pessoas encantadoras e pode mudar a ordem das palavras que também dá certo. Nos viramos e reviramos, fizemos coisas que você nunca tinha imaginado. Viajamos muito, aprendemos uma língua (e meia) e vimos muita coisa nova.
Nós chegamos até o fim. E pode ficar aliviada: Ainda somos felizes!
Iasmin Mendes

Uma década e meia

Quando tinha sete anos fiz uma carta, uma carta simples, com erros horrendos de português, uma letra perto do ilegível, a carta era para mim mesma, destinada na verdade a um futuro eu, onde eu teria quinze anos.
Completei.
Li.
Na carta eu defino minha vida, minha idade, minha escola, digo que sou feliz, que gostava de dançar, que fazia violão e que queria entrar para o vôlei no ano seguinte, e no final da carta como um recado para mim mesma digo que gostaria que meu eu no futuro estivesse dando continuidade a essas atividades.
Percebi ao ler aquelas letras alegres e despreocupadas que muita coisa mudou, mas também que muita coisa permaneceu. Não tenho mais uma professora, mas 12, tenho 15 anos e não mais 7, apesar disso ainda amo minha família, e ainda mais do que antes, ainda tenho amigos maravilhosos, mesmo que não sejam os mesmos, faço dança e não pretendo nunca parar, pratico violão em casa (sem sucesso) e faço vôlei na escola mesmo com pouco talento.
O tempo passou, mas eu ainda continuo aquela menina da carta, talvez não na balança, não na cabeça, mas no coração, vejo ainda aquela simplicidade em mim, e não é ego, apenas satisfação em descobrir que essência não se muda e que, para sempre, eu vou ter um pouquinho daquela menininha de sete anos em mim.
Hoje estou aqui não para me auto parabenizar, pois de parabéns estão os que me aturam a tanto tempo, mas para agradecer a Deus e aos que tenho como um presente dEle, agradecer por ter chegado até aqui, pedir aos outros perdão pelo que fiz, pedir a mim perdão pelo que deixei de fazer. Estou aqui para dizer que estou feliz acima de tudo, por ter uma família tão perfeita, amigos tão essenciais, uma escola pela qual sou apaixonada, uma vida tão pacata, tão alegre. stou aqui para agradecer por me deixarem ser a uma década e meia Iasmin, sem mais, sem perfeição, sem excesso de qualidade, só eu mesma.