Sintonia

Elarge (1)u e a primavera estávamos em Paris. Era começo de noite e do restaurante eu via a torre Eiffel. Minhas tentativas de pedir um prato em francês estavam fracassando quando uma outra voz que não era minha, ou da atendente – e, provavelmente, não era da primavera – ecoou enquanto o dono dela puxava a cadeira ao meu lado e se juntava a mim à mesa.
Talvez eu deveria ter reagido, mas sofro de impossibilidade-de-reação-ao-ouvir-homem-sexy-falar-francês. Nos olhamos por longos deliciosos segundos. Ele falou algo, soava bonito e ritmado, mas tudo que consegui entender foi que era uma pergunta por causa da entonação. Pedi pra ele repetir, mas ele não podia me entender. Continuamos nessas tentativas frustradas que se transformaram em sorrisos e gargalhadas. Até sua gargalhada tinha um sotaque francês…
Conseguimos nos apresentar e começar uma conversa com um pouco de nexo. Ele me ensinou um pouco de francês e jantamos e rimos e nos divertimos.
E no fim da noite a primavera e Paris assistiram nosso beijo: O momento em que finalmente parecíamos estar falando a mesma língua.

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Gente que escreve

largeTem gente que escreve para si e gente que escreve para o mundo. Tem gente que adora o chiado do lápis no papel – e a dorzinha na mão ao final do texto – e gente que ama o som das teclas do computador ritmando a obra escrita.
Tem gente que se inspira nas lágrimas, gente que se inspira em sorrisos e gente que se inspira do nada (quem não é gente da gente nunca entenderá como isso acontece, talvez nem a gente entenda).
Tem gente que quando lê o que escreveu há dois anos, se envergonha, e gente que quando lê o que escreveu há dez se surpreende e se orgulha.
E tem gente que é um pouco de cada gente descrita. Dependendo do momento ou do gênero que está a escrever. Gente que os seus textos resumem, mas não limitam. Gente que muda em e por cada página que redige, mas que tem essência e a deixa transparecer em toda frase que compõe. Gente escritor: Seres comuns que se fazem únicos naquilo que escrevem.

Um antes e depois grafado

Há 10 meses escrevi esse poema sobre meus pensamentos em relação ao intercâmbio. Hoje, lendo-o, me senti na obrigação de me comunicar de alguma forma com aquela menina tão temerosa, mas tão decidida. Fiz uma carta para àquela que um dia fui agradecendo-a por não ter desistido.

Eis o poema “Introspecção” datado de 24 de Agosto de 2013.

Hoje pensei em desistir.

Que ideia inconsequente deixar pai, mãe, cachorro, amigos, casa, colégio.
Que ideia inconsequente deixar forró, brigadeiro, frevo, maracatu, calor.

Hoje pensei em desistir.

Minha mente martelava:
Você não vai conseguir
não vai conseguir
não vai
não
não posso pensar assim

Meu intercâmbio vai ser um desafio
Meu maior desafio
Vai me fazer sofrer e quase desistir, mas vai me fazer aprender.
Vai me mostrar que eu posso ser mais forte que a saudade, porque na vida a gente tem que aprender a lidar com ela.
Vai me ensinar a conviver com os outros e comigo.
Vai deixar que eu descubra quem sou de verdade.
Vai me mostrar que a vida é mais que isso que eu vivo agora
é mais que se preocupar com o que não interessa
é mais que não aproveitar o que se tem
Vai me mostrar que a vida é mais

Então eu não vou desistir. Não vou desistir porque acredito em mim, porque acredito que posso finalizar um projeto, que posso fazer aquilo que é certo e não aquilo que é cômodo.
E que posso
Ultrapassar as dificuldades
E ser feliz

Eis a carta:
Olá,
Eu sou você. Estou vivendo o momento que você tanto pensou sobre, se indagou e até temeu. O momento que você não tinha ideia como seria. Estou no final do nosso intercâmbio.
Você sou eu pré-intercâmbio: Mais infantil, com menos certezas. Eu sou você oito quilos mais pesada e um bocado mais amadurecida.
Não se preocupe: Ainda temos muito em comum. Eu ainda sonho como você, escrevo como você. Eu amo diferente de você, mas tanto quanto você. Eu ainda sou você, mas nós crescemos.
E quero, por meio desta carta, te agradecer por ter nos permitido crescer. Eu lembro como estávamos receosas, mas quero te certificar que deu certo.
Conhecemos lugares lindos e pessoas encantadoras e pode mudar a ordem das palavras que também dá certo. Nos viramos e reviramos, fizemos coisas que você nunca tinha imaginado. Viajamos muito, aprendemos uma língua (e meia) e vimos muita coisa nova.
Nós chegamos até o fim. E pode ficar aliviada: Ainda somos felizes!
Iasmin Mendes

Soneto ainda sem nome

largeUma caneta falha, um papel gasto
Uma mente nova, mas cansada
Por mim passou a madrugada
E o ofício permaneceu casto

As rimas se foram com o dia
A noite trouxe escuridão da mente
Nenhuma tentativa foi suficiente
Para construir minha poesia

A noite está escura e calma
Contrariando a minha alma
Que está triste e frustrada

Sei que hoje produzirei nada
Mas antes de dormir me comprometo
Para amanhã, meu projeto: Um soneto

Um viva à poesia viva

tumblr_mkj7l2uyfu1rbub5do1_500_largeUm dia já cantei “A poesia está morta, mas juro que não fui eu” com convicção de uma sofrida em ter que aceitar aquilo, que a poesia tinha morrido com Drummond e Cazuza.
Mas olhando ao redor percebo que ela não morreu, pelo menos não para todo mundo, não em todo lugar.
Vejo poesia nos pássaros, no brilho da lua quando, no ápice de sua beleza, está cheia.
Vejo poesia no meu travesseiro, talvez poetizados pelos meus sonhos..
E quando eu escuto Chico Buarque.. Ah, aí eu sinto a poesia, poesia viva!
A poluição tira a poesia do mundo, aquela do ar, da água, do som, mas poesia que é poesia, resiste. Vira a página. Revira a página. Revira a vida.
Vejo poesia no Anitelli quando ele faz trocadilhos que me surpreendem como em Zaluzejo quando ele diz “Que não vai S na cebola, que não vai S em feliz” (que não vai é ser infeliz). Quanta inteligência e sagacidade, Fernando, ou melhor, quanta poesia!
Não há nada mais poético que meus pais se tratando como namorados enquanto comemoram suas bodas.
E quando meus amigos se juntam para tocar violão e um deles começa os acordes de Vinícius ou Leoni, aí eu vejo que ainda há esperanças, a poesia ainda vive.
Então, Caetano, seu lindo verso não pode estar tão certo, até porque ele mesmo me fornece poesia suficiente para me abalar. E poesia que se prese, abala quem a conhece.

O cesto frio

1aa9dfc4f5b647b306532549202f862d_largeEra uma criança que tinha sido deixado pela mãe na rua Marilino de Albuquerque, 214, dia 16 de Abril de um ano que não importa por um alguém que se importava e por isso mesmo preferiu deixar seu pequenino para outro alguém que pudesse lhe oferecer um futuro melhor. Antes de apertar a campainha ela o abraçou forte e balbuciou as palavras nas quais ela mesma estava se forçando a acreditar por achar ser a única opção: “Vai ser melhor pra você”. E nos braços dela ele se sentia amado, se sentia bem, mesmo com fome.. Mas ela o colocou na cesta. E na cesta ele sentia frio e medo, sentia vontade de sair dali e correr, mas nem andar sabia ainda. Até que fora resgatado por uma governanta de roupa engomada e mente ocupada que o levou para dentro.
Ele cresceu dentro da casa enorme da rua Marilino de Albuquerque, 214, e tinha comida e tinha brinquedos e tinha mesada.E gastava a mesada e fazia viagens e até tinha amigos. Seus pais, ou aquelas pessoas de olhar pragmático e vazio que habitavam a casa, trabalhavam dia e noite para lhe dar comida, brinquedos, mesada, viagens e talvez, amigos. Perguntavam se ele precisava de algo e ele sempre dizia que não, mas toda noite antes de dormir se sentia na cesta e continuava querendo sair, correr, mas agora o que lhe impedia não era não saber andar, mas não saber para onde ir, não saber onde encontrar a mulher do bom abraço.
A casa da rua Marilino tinha uma temperatura ajustada ao agradável, mas nunca conseguira o aquecer tão bem quanto aquele último abraço do dia 16 de Abril. E nenhum dos bens comprados pelos seus ‘pais’ o fazia tão bem quanto o que sentira nos braços de sua mãe. Braços preenchidos de amor. Braços que não iriam puder ser comprados em loja alguma.

Ele era bom. Cuidava de filhos e dividas que não tinha feito. A levava ao cinema e fazia questão de pagar entrada, além de assistir o filme que ela escolhesse, independente de qual fosse. Ela nunca havia o pego mentindo ou traindo. Ele era bom. Não bom de cama, mas bom de alma. Dava livros e viagens de presente. Mandava mensagens dizendo onde e com quem estava, mas era desnecessário, ele sempre estava fazendo as mesmas coisas com as mesmas pessoas. Ele sempre chegava em casa nos mesmos horários. Ele a fazia tranquila, despreocupada, algumas vezes até a fazia feliz, mas nunca a fez mulher. Ela queria mistério, magia e motel, ela queria ter medo da traição só para depois descobrir que fora um susto. Ela não queria cinema, queria programas diferentes, queria beijos na chuva. Queria sair e não ter hora pra voltar. Ela queria amor, claro, mas queria ousadia e uma porcentagem de loucura. Ele era bom, mas não pra ela. Ele era bom, talvez bom demais pra ela.

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