Do lado de dentro

A tarde estava quente demais, mas eu não podia sair de dentro do meu quarto abafado, “é perigoso, muito perigoso”, foi isso que ouvira do meu pai quando sem muita esperança pedi para tomar um ar lá fora. Na verdade essa era a resposta para quase todos os meus pedidos, desde o acidente tudo é motivo de medo, receio, meu pai me tornou muito mais frágil do que eu sou. Enquanto ele se ocupava em me negar toda e qualquer coisa, minha mãe se ocupava em me ignorar e se envergonhar de mim.
Com muito esforço o vento passava por aquele pequeno orifício que meus pais (e apenas eles) chamavam de janela e balançavam levemente meu cabelo, eu adorava aquele lugar, era o único que me proporcionava uma visão do mundo, o mundo lá fora, digo, não o mundo que meus pais me limitaram. Se eu podesse me levantaria e pularia aquela janela como fazia para ir brincar escondida com minhas amigas quando em vez de rodas eu ainda tinhas pernas.. E quando eu ainda tinha amigas.
Uma ave posou alí por perto, linda, leve, e além de tudo livre, ela sim deveria ser feliz, sobrevoava paisagens lindas quando quisesse e quando queria descançar suas asas descia em um lugar qualquer e permitia aos terrestres admirar sua beleza. Era difícil viver presa, sem que o mundo soubesse sua existência, imagino que muitos da minha pequena cidade pensassem que não estou nesse mundo. Não exagero, mesmo parecendo que sim, há muito minha vista é uma tela, quadrada, estática. Nada posso acompanhar, tudo me abandona assim que passa dos limites daquela tela.
A ave ainda estava alí, talvez com pena de mim, as poucas pessoas que ainda visitavam aquela casa só sentiam aquilo, pena. Acho que se eu entrasse naquela casa e me visse eu também sentiria pena. Bom, mas que besteira, eu jamais entrarei em lugar qualquer, nem ao menos sairei, eu me estabeleci naquele quarto desde que meu pai teve a infeliz surpresa de uma curva fechada e não conseguiu encará-la. Desde lá minha mãe mal para em casa, preferindo fingir que não pertencia àquela família e meu pai trabalhava em casa mesmo, mas na maioria do tempo estava se preocupando com qualquer coisa que, para ele, podesse me machucar.
A ave voou, um voo de liberdade, harmonioso, suas asas em um ritmo admirável e eu fechei minha janela, movi aquelas rodas de um lado por outro fingindo não ter limite, fingindo ser livre, fingindo que ter esperança, enfim, fingindo ser feliz.

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2 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Mateus Honório
    out 16, 2011 @ 17:33:50

    Escrita harmoniosa a sua. Parabéns pelo conto.

  2. IasminMendes
    out 18, 2011 @ 21:14:10

    Muito obrigada!

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