A outra

Eu, meus óculos escuros, meu lenço de cabeça e meu vestido de mangas compridas entramos no apartamento 206 do prédio a minha frente, o chamado “ponto de encontro”. Entrei 17 minutos depois do combinado, pela porta oposta, para não nos vermos juntos de forma alguma. Enquanto subia o elevador retoquei minha maquiagem, mas não tirei o lenço, nós dois tínhamos combinado que caso ocorresse algum problema no nosso encontro era preferível que eu não fosse reconhecida. Nos encontrávamos toda semana, naquele horário, naquele local, a mulher dele começou a desconfiar a algum tempo, mas nossos encontros eram inevitáveis, eram necessários, sempre cheios de amor, paixão, pelo menos ele dizia que pensava assim como eu.
O único motivo pelo qual ele não se separava era a duração de seu casamento de 20 anos e sua filha, de 15, era jovem e estava passando por problemas, precisava da mãe e do pai, de preferência juntos, porém, em relação a mim, em relação a nós dois, bom, ele dizia que me amava, e de uma forma que eu acreditava piamente. O elevador se abriu e eu entrei no apartamento onde ele já estava só com a camisa e calça social, com a gravata semi-tirada, e usando o kaiak que ele sabe que eu adoro.
Passamos a noite juntos, como todos os nossos encontros foi especial, mas dessa vez foi um pouco diferente, talvez porque eu estivesse acumulando a raiva por ele trazer os assuntos de casa, me mostrando sempre, mesmo sem querer, que eu sou a segunda mulher e a menos importante, também porque nesse dia a mulher dele ligou várias vezes desconfiada perguntando coisas e ele dizia que estava no trânsito, cada vez que ele usava essa desculpa (ridícula por sinal, porque nossa cidade nem é tão grande) eu me sentia menosprezada, baixa, vulgar. Eu sabia que fui eu que escolhi essa vida, mas estava cada vez mais difícil.. Daí eu falei a ele o que eu estava sentindo, aquele incômodo que parava sobre mim, e tudo o que ele disse é que não podia fazer nada, que tinha uma família, um nome e não tem como jogar tudo pro ar, por atração, e quem sabe por amor. Preferi não falar mais nada, continuamos aproveitando a noite, mas toda vez que ele me dizia aquelas palavras bonitas eu lembrava que eram as mesmas que ele sussurrava para sua esposa, sua verdadeira mulher.
Ela ligou novamente e ele preferiu se despedir, eu até achei melhor, mesmo gostando daquele momento, naquela noite eu estava mal por tudo, pelo nosso relacionamento, por ser apenas a outra. Ele se vestiu e foi embora, me deixando apenas a certeza que jamais será totalmente meu.

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2 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Jujuh
    jan 21, 2011 @ 17:49:43

    com sempre a primeira a ler e a comentar neh amiga ? *–*

  2. IasminMendes
    jan 21, 2011 @ 17:51:26

    Claro que sim!

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